Minas Trend: marca desfila peças de tricô e crochê feitas por presidiários

A seguir, a estilista Raquell Guimarães, à frente da Doisélles, fala de seu trabalho social com detentos de Minas Gerais

Texto: Juliana Cazarine Publicado quinta 6 outubro, 2016

A seguir, a estilista Raquell Guimarães, à frente da Doisélles, fala de seu trabalho social com detentos de Minas Gerais
É a primeira vez do Doisélles no Minas Trend - Daniela Petrucci

A delicadeza dos pontos de tricô e crochê das roupas da Doisélles, no Minas Trend hoje, 7, reflete o valor que a marca dá à moda artesanal - mesmo inserida em um mercado que pode ser bastante cruel com a cadeia produtiva. Para a estilista Raquell Guimarães, a moda pode ser um instrumento de transformação social. 


Em sua estreia no Minas Trend, ela leva à passarela 18 looks de tricô e crochê feitos por detentos da Penitenciária Professor Ariosvaldo de Campos Pires, de Juiz de Fora, e detentas do Complexo Penitenciário Feminino Estevão Pinto, de Belo Horizonte. A inciativa de usar mão de obra de presidiários surgiu em 2009 e desde então, foi ampliada. O projeto foi concebido dentro da Lei de Execução Penal, que diz que o trabalho dos presidiários condenados deve ter função educativa e produtiva. "Quando completei 18 anos, entrei no Carandiru, em São Paulo, e soube que aquele lugar deveria ser um campo de trabalho porque as pessoas não podiam ficar ali sem fazer nada. Depois, o Carandiru fechou, eu abri a minha marca, fui até a penitenciária da minha cidade e fiz dela um local de trabalho", explica.


- Quando você começou a fazer tricô e crochê?


Nós somos o que vivemos. Minha mãe e as minhas avós sempre fizeram tricô e crochê. Eu vivia no meio de fios e agulhas e queria fazer o que elas estavam fazendo. Comecei antes de aprender ao ler, aos cinco anos, então não conseguia seguir as receitas, mas já sabia fazer os pontos. A minha avó ia ditando para mim e eu reproduzia. Já saía alguma coisa.


- Foi dessa paixão pelas técnicas manuais que surgiu o seu interesse pela moda?


Meu interesse por moda vem do meu interesse por harmonia. Gosto de observar a formação estética dos objetos e a composição deles. Sempre gostei de arquitetura, desenhava bastante quando era criança, mudava totalmente o meu quarto a cada seis meses... Gosto de observar a composição de elementos. Então passei a exercer esse meu gosto na maneira como me vestia. Enquanto todo mundo usava roupa "pronta", eu gostava de comprar as peças e ir no armarinho procurar itens para modificá-las. Meu interesse por moda vem do meu interesse estético pelo objeto.


- Então tudo é inspiração...


Vivência para mim é inspiração. Hoje moro na zona rural e sempre escuto: "Raquell, você não vê gente, não vê vida urbana". De fato não vejo. Venho muito pouco a cidade. Mas eu vejo tanta composição de cor na natureza. Você olha para um arranjo de flores, por exemplo, e consegue uma cartela de cores exuberante. Um prato de comida pode ser uma cartela de cores. Tudo o que eu vivo vira ferramenta de criação.


- Como funciona o seu processo de criação?


O processo é manual. É como se as peças tivessem status de obra de arte porque são feitas à mão. Um artista plástico não faz coleção, ele faz a obra. Não estou me colocando na posição de artista, sou uma estilista e tenho uma marca. Mas, como o processo é manual, me dou ao direito de fazer coleções o tempo todo. No desfile vou apresentar uma coleção completa, que surgiu mais de uma edição de tudo o que eu faço, do que da concepção de uma coleção. É uma edição do meu momento porque uma marca autoral fala do seu processo de vida.


- Qual é o conceito dessa coleção que você vai apresentar no Minas Trend?


O conceito é a economia afetiva, porque eu sou uma cadeia de relações, que envolve desde os criadores de ovelha, onde tudo começa, até os fornecedores, o estado, e principalmente homens que com mãos brutas aprenderam a tecer e conseguiram me mostrar que eles têm sim sensibilidade para coisas delicadas. A ideia é criar uma perspectiva coletiva, um coworking por identificação. O meu produto é cheio de fatias, de pessoas que eu entendo que têm uma afinidade estética e afetiva. As relações de trabalho têm que ter envolvimento, ainda mais em um negócio feito à mão.


- Você transformou penitenciárias de Juiz de Fora em campos de trabalho. Como isso aconteceu?


Surgiu de uma necessidade de mão de obra aliada a uma necessidade minha de olhar o outro. Quando a gente nasce, cresce e é formado em uma condição favorecida economicamente, temos por obrigação olhar o outro. Temos que conhecer a realidade de quem está em outra realidade. Desde muito nova, eu reunia os amigos da escola e fazia um sopão para distribuir para os moradores de rua. Eles não tomavam a sopa enquanto a gente não ia embora porque queriam conversar. Não era fome. Foi assim que comecei a enxergar o outro e ir a orfanatos, asilos, penitenciárias. Quando completei 18 anos e já morava em São Paulo, entrei no Carandiru e soube que aquele lugar deveria ser um campo de trabalho porque as pessoas não podiam ficar ali sem fazer nada. O Carandiru fechou, eu abri a minha marca, fui até a penitenciária da minha cidade e fiz dela um campo de trabalho. No primeiro ano de marca, fechei uma exportação grande de biquíni de crochê e já fiz a minha primeira vivência em penitenciária. A produção funciona assim: levo a peça piloto, ensino a fazer e acompanho a produção na medida do possível.


- O consumo desenfreado estimula uma produção "perversa", mas a moda pode ser socialmente responsável. Certo?


As pessoas veem a moda como um consumo de desejo. Todo consumo conversa com desejo, na verdade, mas para a moda o desejo é quase sempre estético. O posicionamento da Doisélles é de sustentabilidade. É claro que o nosso produto fala de beleza. Ele não fala de boniteza, que é o que está na moda. Ele fala de beleza e tem um processo humano nele. Falamos de moda sustentável - e no Brasil há meia dúzia de pessoas lutando nessa história - porque a distância entre um produto de moda e a pessoa que fabricou ele lá no início da cadeia é enorme. Os produtos da vitrine das lojas não vêm com um gravador ou álbum de fotos que conta o processo de produção do algodão no solo, que pode ter sido transgênico ou submetido ao uso do agrotóxico, ou a maneira como foi colhido, fiado, tingido, tecido, cortado, costurado e vendido. Essa cadeia de moda invisível que está por trás desse produto é muito perversa e tem a ver com um desejo de consumo que não é consciente. Mas está por vir uma geração de estilistas e consumidores que vai querer olhar esse processo invisível e questionar as marcas que não têm responsabilidade social com a matéria-prima e o processo produtivo.

Último acesso: 30 May 2020 - 14:32:54 (1020338).